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Posted by  in Noites na Nora


“Europa”junta no palco jovens actores e seniores da comunidade de Serpa
Depois da estreia na Casa de Teatro, em Sintra, e da residência e apresentação no Centro de Artes Performativas do Algarve, em Faro, o Teatromosca (www.teatromosca.com.sapo.pt) chegará a Serpa no dia 24 de Julho. Ao elenco fixo do espectáculo “Europa” juntar-se-ão 12 elementos seniores “não-actores” da comunidade.
Há paixões que começam assim, por acaso, sorte ou, quiçá, por efeito do destino. Pedro Alves, director artístico do Teatromosca, comprou um livro: “King – A Street Story”. A história, sobre um grupo de sem-abrigo que vivia num terreno baldio de uma grande cidade, uma qualquer grande cidade, foi para Pedro “das coisas mais belas e mais violentas” que já tinha lido. E, como em todas as paixões, não havia mais nada a fazer a não ser deixar-se levar pela impulsão. “Tinha de adaptar aquela obra ao palco”.
“DOG ART”, em parceria com o Teatro TapaFuros, foi a primeira encenação de Pedro Alves no Teatromosca, e o início do “fascínio” pela obra de Jonh Berger (Inglaterra, 1926), considerado como um dos mais influentes escritores dos últimos 50 anos que explorou as relações entre o indivíduo e a sociedade.
Depois de “DOG ART”, um espectáculo sobre a cidade, Pedro sentiu necessidade de “começar tudo de novo e regressar à fonte, às tradições orais, à narração, à memória” e “tentar ouvir as vozes” perdidas no meio da grande cidade. Quem eram? De onde vinham? “Eram-me muito familiares. Vi-as nas ruas todos os dias. Vi-as em minha casa. Eram os meus avôs, os meus pais. Era eu. Pessoas que tinham vindo de outros lugares e que agora viviam nas grandes cidades do litoral ou nos subúrbios. Eram as vozes não glorificadas pela História oficial, aqueles que são apenas números, que apenas servem para as estatísticas e de quem nunca se ouve falar. Eram camponeses que tinham sido forçados a deixar as suas terras e que tinham emigrado, que tinham partido em busca de algo melhor, mas que, no fim, na maioria dos casos, apenas encontravam solidão e miséria (precariedade é coisa demasiado burguesa!), mas que, apesar de tudo, guardavam dentro de si coisas valiosas: as suas memórias, as suas recordações, as suas tradições”.
A necessidade de “encostar o ouvido à terra” e escutar essas vozes, aprender com elas, contar as suas histórias e “contrariar a vertigem deste tempo em que vivemos mergulhados sem noção do passado, sempre presos à ânsia do futuro e do imediato” levou o Teatromosca a aprofundar o trabalho em torno do autor a partir trilogia literária Into Their Labours (Pig Earth, Once in Europa e Lilac and Flag) pretendendo um retrato do modo de vida camponês, reflectindo sobre a sua cultura e o seu progressivo desaparecimento.
«As Três Vidas de Lucie Cabrol», a partir de Pig Earth foi o primeiro espectáculo da trilogia “Dos seus trabalhos”, com estreia em 2010. Segue-se “Europa” (Once in Europe) onde se aprofunda ainda mais a questão da modernização deste mundo rural. Uma colecção de histórias, em que o amor e a indiferença constituem uma parte essencial da vida das personagens, mostra como o mundo rural retratado no primeiro romance tende a desenvolver-se e a modernizar-se, criando cada vez mais injustiças.
Actores e não actores juntam-se em Serpa no palco “Europa”

Foto (de ensaios): Ricardo Pereira
Foto (de ensaios): Ricardo Pereira
É essa “Europa” que o Teatromosca apresentou no palco da Casa de Teatro de Sintra e agora traz até Serpa, onde incluirá 12 elementos seniores da comunidade. Uma comunidade que, no texto de Berger, é constituída por pessoas ligadas à terra, “que transportam consigo as tradições, as histórias, os costumes antigos, que são a voz da experiência. São eles a fonte destas histórias. São narradores e actores desta história, da sua própria história”.
São estes narradores que o Teatromosca procura em residência artística no festival Noites na Nora, entre 24 e 28 de Julho, juntando os três jovens actores da companhia, um músico, e um grupo de 12 seniores sem qualquer formação em teatro.
A inclusão desses dois grupos em palco (actores jovens profissionais e actores não profissionais seniores acaba por ser “mais um reflexo do conflito entre o rural e o urbano, entre a tradição e a modernidade, entre o passado e o futuro… Mas tudo isso apenas para que essas barreiras sejam destruídas”.
No dia 28 de Julho, pelas 22h30, no palco do Festival Noites na Nora, “Europa” pretende abolir fronteiras que “não fazem sentido. Não há passado, presente ou futuro. Todas estas separações não fazem sentido. As fronteiras foram abolidas”.
Baal17 e Teatromosca – “Actos de Revolta”
Foto (de ensaios): Ricardo Pereira
O acolhimento de residências de criação artística assume, não só no Festival Noites na Nora, mas também nos objectivos da Baal17 (a criação do Centro Artístico da Nora, que visa o acolhimento, co-produção, programação e criação de espectáculos e a formação artística) um papel preponderante.
No seguimento do trabalho desenvolvido pela Companhia, que assume o intuito de trabalhar o mundo rural como matéria de criação artística, as residências artísticas acolhidas no Noites no Nora, comportam em si uma aproximação à região, que a liberdade do criador desenvolve.
Neste sentido, fazia (e faz) todo o sentido iniciar uma parceria com o Teatromosca, até porque, afirma Pedro Alves, “havia algo no trabalho que a Baal17 vinha a desenvolver que cruzava na perfeição com aquilo que são os objectivos do projecto. Ambos – a Baal17 e a nossa trilogia “Dos seus trabalhos” – são projectos de resistência, actos de revolta”.

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